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O Pequeno Conto do Poeta (ou O Dilema Mais Irrelevante do Universo)



Contam que certa vez um homem resolveu abrir a caixinha guardada no fundo de seu coração. Um baú com um tipo único de tesouro, mais brilhante que qualquer esmeralda, mais raro que qualquer diamante. De lá, tirou uma infinidade de formas, cores e luzes, e as espremeu sob um molde de palavras jamais ditas a alguém.

O homem, certo de sua atitude, entregou cuidadosamente aquelas rimas a quem creditou o devido merecimento. “Não existe, existiu e existirá outro alguém mais merecedor de tais palavras!” – ou assim supôs. Os versos então foram lidos em voz alta, arrancaram um breve sorriso e foram soprados pelo vento.

Atônito, o homem apenas pode observar sua valiosa métrica dissipando-se no ar, diante de si, tão efêmera e insignificante. A ponta dos dedos comprimiu-se de forma involuntária e os lábios moveram-se buscando o som, mas nem o menor dos tons conseguiu encontrar caminho.

Quando o sopro do acaso cessou seu assobio, o homem lançou-se desesperadamente no chão, tentando catar o precioso bolo de vogais e consoantes, agora espalhadas pela areia. Escavou a terra por horas, abaixo de uma cortina empoeirada de desesperança, mas mesmo com tanto esforço, as palavras continuavam incompletas.

Quando se deu por vencido e ergueu o corpo cansado, trazendo junto a si o que restara de sua poesia, o homem esbarrou com um rosto feminino, também tomado pelo desanimo. A moça protegia junto ao corpo alguns versos surrados, incompletos. Os dois trocaram um olhar de estranhamento, seguido por um longo silencio de resguardo. 

Percebendo a incompletude nos versos daquele à sua frente, a moça limpou uma de suas palavras no vestido e a estendeu-lhe, tímida. O homem então sorriu. E sem que nenhum dos dois percebesse, daquela pequena ação nasceu o mais belo verso de amor. 

Shinji


Bom, eu poderia terminar com um final diferente, mas sejamos sensatos, até este pobre coitado tem o direito de ser feliz...

O Livro do Amor



Nenhum livro é tão extenso quanto o livro do amor, é preciso um mês inteiro para conseguir escalar até a capa.
Nenhum livro é tão denso quanto o livro do amor, especialistas de todas as áreas e de todos os cantos do mundo não conseguiram decifrar seu conteúdo.  
Nenhum livro é tão simples quanto o livro do amor, de modo que qualquer criança consegue lê-lo e entender seus sentidos.
O livro do amor está escrito em todas as línguas conhecidas e em algumas desconhecidas também.
O livro do amor está escrito em páginas de todas as cores e de cor nenhuma.
O livro do amor está escrito com uma tinta que desaparece ao toque do arrependimento, remorso ou tristeza.
Dentro do livro do amor estão as palavras mais belas, escritas para serem ditas apenas uma vez na vida.
Dentro do livro do amor estão as fragrâncias mais doces, o aroma da felicidade presente, o cheiro das lembranças da infância e o perfume das vontades futuras.
Dentro do livro do amor está a música perfeita, com violinos, violoncelos e flautas, um som sutil, delicado e envolvente.   
Dentro do livro do amor está a voz mais doce, que canta melodias que ressoam silenciosas nas almas.
Dentro do livro do amor estão sementes das árvores mais raras, sementes de lágrimas e sementes de sorrisos.
Dentro do livro do amor existem estatísticas de situações jamais imaginadas, com muitos gráficos e porcentagens.
Dentro do livro do amor estão também uma aula de dança, um manual de jardinagem e um de guia de culinária.
Nenhum livro foi, é ou jamais será como o livro do amor.

Shinji



Musa do tempo agora
Que me trás a aurora
No sorriso singelo
De um dia mais belo
E que tange a agonia
De uma vida vazia
No doce intento
Que revoa ao vento
_________


Shinji

Se for de aplaudir

Pés, para onde vamos? Descrente ou de mente sã? Um instante para refletir? Isso não me atrai mais. Outrora, porém, dançava alegremente e ignorava os gritos e risos que me tarjavam de louco vindo daqueles que não ouviam a música. E se antes eu via genialidade na loucura, hoje vejo loucura na genialidade. E se for falar de moralidade, vou sorrir desse ethos que me faz prosear sentimentos versados em cordéis de pensamentos. Porém, não vou abandoná-lo, não vou me entregar ao asco que me cerca. Chega dessa burocracia juvenil operária que escamoteia minha vontade. De Nietzsche a Jhonen Vasquez, um riso solto, vago, sem propósito ou essência. Sem mais inspiração na luz ou na escuridão. Não me atrai mais, nem mesmo a chuva de novembro. Não ando pela luz, esta ofusca minha visão. Não tateio na escuridão, ainda preciso ver para onde vou. Aliás, pés, para onde vamos? Tão claro como alguém sem planos. E se no final, se for de aplaudir, nem precisa se levantar. As cortinas apenas abaixam e fim! “Nem um dia a mais se vai. Nem hora mais se dá. Sem que eu pense que todo erro é um pertence. Olha não, melhor lembrar que há”.

Jeckyll
O trecho aspeado pertence à música "Se for de Aplaudir - Suéteres"

Realmente, tanto faz...

Caro amigo, venho por meio de tal instrumento singelo manifestar o meu regozijo por vossas várias faces culturais. Relembro-me com grande zelo de suas desventuras, em crônicas e versos, ao tentar descrever o mundo ao seu redor. O carisma e a maneira inexorável com que vós defendeis vossas famigeradas quimeras.
E é justamente neste universo quimérico que nós, enquanto Bardos Errantes, vivemos e nos deleitamos em escrever para os que virão.
Então, nobre companheiro Shinji, conceda-me o préstimo de pedir ao festejado escritor Le'Ferdinand que mande lembranças ao meu amigo Jubileu!


Att.: Lord Cronus.

Uma vez tive um sonho...

Era um vaso diante de uma enorme fila. As pessoas traziam água em suas mãos, prontas para despejá-la, conforme a fila andava, no sonoro vazio do barro oco. Estavam dispostas a preencher um espaço que, segundo eles, devia estar preenchido. Não sabia dizer se havia algo realmente meu ali; se minha essência podia distinguir-se das demais. Não fui capaz de defender-me, só podia esperar a água transbordar o topo. E quando já não podia mais conter a água, todos apontaram para o chão encharcado, julgando-me. “- Não tive culpa! A água não era minha!” – supliquei, em vão. Cansado daquela hipocrisia, chorei, despindo-me daquela essência indesejável. Daquilo que eu sou, mas não sou eu...



Que lixo...

Shinji