Olhares

A catraca do ônibus gira mais uma vez. Olhares, outrora desinteressados, confluem numa mesma direção. Uns transbordavam desejo, enquanto outros, inveja. Era uma bela moça de olhos brilhantes e longos cabelos castanhos que dançavam conforme o sutil movimento da cabeça, deslizando pelas costas da blusa de botão que, por sua vez, ofuscava-se diante do intencional decote que saltava-lhe a veste. Sua saia terminava bem antes do joelho, tomando o contorno de suas medidas. Por onde passava uma leva de olhares a acompanhava, ficando apenas o extasiante aroma de seu perfume.

Caminhou procurando um lugar para sentar, contudo, o ônibus já estava lotado. Decidiu postar-se ao lado da porta, paralelo a um sujeito franzino que, curiosamente, chamara sua atenção. Era um rapaz magro, de feições pouco atrativas e que vestia-se de modo ordinário. Era alguém que não se destacava na multidão, ao contrário dela, que fazia questão de aparecer. Diferente dos demais, seu olhar não desviava quando ela percebia que estava sendo observada. Passou algum tempo e a situação continuou. Ele não evadia seu olhar.

- Pobre coitado! – refletia consigo mesma – Fica ai fantasiando coisas que não vão sair dos seus sonhos.

Resolveu ignorar, mas ele continuava fitando-a, inerte. Aos poucos ela foi perdendo a calma, até que, enfurecida, foi na sua direção.

- Percebi que você não para de me olhar. Eu até te entendo. Mas, infelizmente, para alguém como você, não vai passar disso. Então, se contente em ficar apenas admirando minha beleza! - um pequeno sorriso escapara do canto de sua boca.

- Sinto, mas para mim, sua beleza é irrelevante... – ele se levantou, indiferente, esticando a haste de metal seccionada em três partes, típica bengala de quem não tem a visão.

O ônibus para e o rapaz vai tateando até a saída, deixando a moça sozinha. Seu sorriso a abandonou. Agora os únicos olhares que se voltavam na sua direção, eram os de desprezo.

Thiago Ramos

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